A coragem de existir no vazio

A coragem de existir no vazio

Por Karla Mello

O yoga não foi amor à primeira vista para mim.
E talvez essa seja uma das frases mais honestas que eu possa dizer sendo sócia fundadora de uma rede de estúdios de yoga.
O yoga me atravessou primeiro pelo desconforto.
O desconforto de permanecer parada me incomodava quase como uma ameaça.
Estar sozinha comigo mesma, sem distrações, sem notificações, sem produtividade performática disfarçada de importância… era difícil demais.

Trabalhava em uma agência de publicidade renomada, vivendo aquela estética perigosa da exaustão sendo confundida com sucesso.
Noites em claro. A cabeça acelerada o tempo inteiro, como se desacelerar fosse algum tipo de fracasso.
Eu sempre gostei de intensidade. Movimento. Ideias. Gente. Conversas. Barulho. Agenda lotada.
Como se estar em movimento constante pudesse impedir a vida de encostar em certos vazios.

Porque, às vezes, o vazio assusta.
Mas existe uma coisa que o yoga me ensinou aos poucos e que mudou profundamente a forma como eu me relaciono comigo mesma:
Nem todo vazio significa ausência.
Às vezes, ele é apenas um espaço que a vida abriu para você finalmente caber nela.

Foi um momento muito simbólico em que percebi que tinha vivido tempo demais tentando escapar de mim.
Ocupando cada silêncio. Cada pausa. Cada espera. Como se parar fosse perigoso.

O yoga foi o primeiro lugar onde comecei a entender que silêncio não é ausência. É encontro.
E talvez por isso ele tenha sido tão desconfortável no começo. Porque o yoga não anestesia. Ele revela.
Revela o cansaço que a gente aprendeu a normalizar. Os padrões que fomos acumulando sem perceber. 
A forma como confundimos controle com segurança. E o quanto vivemos no automático.

E, curiosamente, hoje não é mais a palavra “yoga” que me assusta. E sim, a palavra “automático”.
Porque aquilo que não é questionado se torna mecânico.
E tudo que é vivido de forma mecânica, cedo ou tarde, perde o sentido.

E só é possível sair desse lugar, fazendo autorrevisões constantes.

Perceber padrões. Questionar reações. Entender de onde vêm certas durezas internas. Revisitar crenças que pareciam definitivas demais. Encarar medos e sombras.

Quem nunca se questiona acaba se tornando refém das próprias certezas. Muitas delas limitantes.
Ao contrário, quem afrouxa as próprias certezas se permite movimento.

A fluidez de existir sem precisar se aprisionar o tempo inteiro em definições rígidas sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o mundo à sua volta.

Eu acredito, profundamente, que nós não “somos”.

Nós “estamos”.

Estamos aprendendo. Estamos mudando.
Estamos nos reconstruindo o tempo inteiro.
E talvez maturidade seja justamente desenvolver flexibilidade suficiente para permitir que novas versões de nós mesmos possam existir.

Muitos acham que yoga é sobre ter um corpo flexível.
Quando, na verdade, a verdadeira flexibilidade é conseguir respirar dentro do desconforto.
É confiar menos na pressa e mais no processo. É respeitar o tempo das coisas.
É aprender a soltar a necessidade exaustiva de controlar tudo o tempo inteiro. 
É respirar antes de reagir.
É se escutar.

Hoje, entendo que yoga nunca foi sobre desacelerar a vida. Foi sobre conseguir me escutar no meio dela.
Sobre me reconectar com o que pulsa, verdadeiramente, dentro de mim.
E o que pulsa aqui dentro, eu encontro (e reencontro) somente no silêncio.

Foi na coragem de existir no vazio que, finalmente, eu aprendi a parar de fugir de mim.

Karla Mello
Sócia fundadora do My Yoga
Em constante reconstrução